Economía

Era uma vez uma cabeleireira que assaltava bancos

Venezuela, Caracas
Estiman pérdida de recaudación en las provincias por IVA y Ganancias

Ainda hoje não há memória de outro caso assim. A cabeleireira atacava sempre sozinha, e nunca perdia o controlo da situação. No espaço de ano e meio visitou uma dúzia de agências bancárias, e só da última vez saiu de mãos a abanar. O que faltava em experiência a esta mãe de dois filhos, sobrava-lhe na serenidade com que pedia aos funcionários dos bancos para lhe entregarem todo o dinheiro que tinham em caixa. Como instrumento de persuasão usava uma pistola. De plástico.

Mais populares i-album Empresas Morreu Alexandre Soares dos Santos, ex-líder da Jerónimo Martins Serviço de Estrangeiros e Fronteiras SEF suspendeu marcações para imigrantes e não sabe quando as retoma i-album Emergência climática E começou: Greta já está a cruzar o Atlântico de barco Os advogados bem alegaram que tinha andado a roubar bancos para matar a fome aos filhos. Que as dívidas que foi acumulando, mais a falta de emprego aliada a um relacionamento tumultuoso, tinham transformado a pacata mulher numa audaciosa assaltante. Mas na realidade nem tudo era exactamente assim, como comprovam as facturas de material informático que a cabeleireira foi comprando com os proventos de uma actividade que de lucrativa não teve tanto quanto esperaria.

Rendeu-lhe pouco mais de 16 mil euros a dúzia de assaltos que fez. Isso e uma sentença de sete anos de cadeia, quando tinha 45 anos. Antes de ter sido apanhada num dia de azar, a polícia chamava-lhe “viúva negra”, por se apresentar sempre vestida de escuro, disfarçada com óculos de sol e cabeleira preta, por vezes de boné. Era uma mulher como qualquer outra, no fundo: nem gorda nem magra, bem arranjada, discreta, rosto delgado. Um autêntico mistério para as autoridades, que andavam à procura de alguém já com cadastro.

A Tia, como também era conhecida, trabalhava sobretudo na linha de Cascais, e as suas proezas chegaram a despertar admiração entre gente do mundo do crime. Não fosse a sua breve carreira ter sido abruptamente interrompida por um gerente bancário mais afoito e talvez tivesse ficado com uma história de crime sem castigo na primeira pessoa para poder contar aos netos.

Foto “Não armes estrilho, se não queres dar cabo da tua vida num minuto.” Foi com esta frase que a cabeleireira abrilhantou a sua primeira actuação, no Banif da Parede, perante uma empregada bancária aterrorizada. “Quando saiu toda a gente do banco, ela chegou-se ao balcão onde eu estava, pousou uma arma que apontou na minha direcção e pediu-me que lhe entregasse todo o dinheiro”, descreveu a vítima em tribunal. Fez o que a assaltante lhe exigia e deu-lhe cinco mil euros.

Foi o primeiro dinheiro fácil de alguém habituado a trabalhar desde os 13 anos, altura em que deixou a escola. Primeiro como ajudante do salão de cabeleireiro da irmã, em Portalegre, depois com o seu próprio negócio, aos 20 anos, na mesma cidade. Teve o primeiro filho logo a seguir, uma menina, fruto de um primeiro relacionamento que, tal como esse salão já seu, também não havia de dar certo. Mudou-se para Lisboa aos 30, para refazer a vida: novo companheiro, segunda criança. Ia batalhando como podia, entre os cabelos da clientela e outros empregos mais ou menos temporários.

Antes de ter decidido mudar de vida tinha sido directora comercial de uma empresa de cosmética juntamente com o novo namorado, um personal trainer que não suspeitava da vida dupla que a companheira passara a levar. Habitavam numa vivenda na Rebelva, em Cascais, mas a cabeleireira acabou por ficar sem trabalho, na dependência do magro subsídio de desemprego. Já tinha consumado o primeiro assalto quando entrou na casa dele, onde entretanto havia deixado de morar, e lhe partiu todas as loiças Vista Alegre. Ainda lhe roubou um Rolex, lamentou-se o homem, contra quem a assaltante chegou a apresentar queixa por violência doméstica.

Continuava as visitas aos bancos a um ritmo irregular: tão depressa fazia dois assaltos num curto espaço de tempo, como ficava meses parada. A pistola de brinquedo era a sua companheira inseparável. Cobria-a sempre com uma peça de roupa, ou então com a mala, para que não se percebesse que a mortífera arma era afinal feita de plástico. Só deixava o cano à mostra. O risco nem sempre compensava: houve vezes que não conseguiu levar mais de cem euros. Tinha-se inspirado no perigoso “el solitario”, havia de se dizer mais tarde, um espanhol com mais de três dezenas de assaltos e dois homicídios no currículo e que cumpriu pena na cadeia em Monsanto.

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Subscrever × Naquele dia fatídico, a 31 de Outubro de 2012, a assaltante entrou no Banif de Entrecampos depois da hora de almoço. Foi mais uma funcionária assustada a responder-lhe que só havia moedas na caixa. Virou-lhe costas, mas tarde demais: o gerente da dependência bancária tinha percebido que a pistola não disparava tiros de verdade e foi no seu encalço juntamente com um colega, desrespeitando o protocolo do sector para estas situações, que recomenda que os funcionários nunca ofereçam resistência. Trancaram-na na casa-de-banho da agência até chegar a polícia. Foi nessa altura que se descobriu que afinal a “viúva negra” era ruiva.

Manteve-se em silêncio durante todo o julgamento. Nem sequer falou das dívidas ao fisco com que justificou a sua actuação à polícia quando foi apanhada. Por vontade do Ministério Público, teria ficado bastante mais tempo atrás das grades. A aparente facilidade com que agia, em plena luz do dia, militou contra ela. “Vivia uma fase de instabilidade económica e também emocional, quer por ter ficado sem emprego quer em virtude da relação que manteve com o seu último companheiro, com episódios de agressividade que lhe perturbaram a auto-estima e confiança”, escreveram as juízas que lhe decretaram sete anos e meio de cadeia. Graças a um recurso viu perdoados seis meses.

Acabou por não cumprir a pena por inteiro. Saiu de Tires já lá vão dois anos. Casou no cárcere, com um preso de outra cadeia que conheceu por correspondência, e do qual se divorciou ainda na prisão. Voltou outra vez a arranjar cabelos. Nas fotografias do salão que abriu recentemente em Lisboa aparece vestida de negro.

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